Quando da publicação da Carta Régia de 1701, proibindo a criação de gados vacuns a menos de dez léguas do litoral brasileiro, como forma de proteção à sacaricultura, foi de premente necessidade à subsistência dos pecuaristas adentrar as matas brasileiras. Nesse contexto, o Coronel Francisco Alves Feitosa e o Comissário de Cavalaria Lourenço Alves Feitosa, filhos de João Alves Feitosa e vindos de Portugal para Penedo nos últimos anos do século dezessete, começaram a penetrar os sertões nordestinos, adquirindo sesmarias e edificando fazendas. Vindos de Sirinhaém, no Pernambuco, deixaram registros pelo Icó e por São Matheus, antes de descerem o curso do Jaguaribe até estas terras dos Inhamuns, no percurso conhecido como “Caminho das Boiadas”.
Estabeleceram residência na barra do Rio Jucá, onde fundaram o mais antigo resquício da fé cristã destes sertões, erigindo uma pequena capela de taipa, muito provavelmente em honra ao patriarca da Santa Igreja, São José. Em que pese não se possa precisar a data destes acontecimentos, foram posteriores a 1707, data em que foram doadas em sesmaria seis léguas de margens do Jucá aos irmãos, e ocorreram, seguramente, antes de 1720, ano que estavam já em Cococi, sendo que o Pe. Christiano Rodrigues afirmava terem tido lugar na primeira década do século dezoito.
Estima-se que tenha sido no ano de 1718 que os irmãos deixaram este pedaço da caatinga, mas não sem antes providenciar a assistência de um sacerdote que pudesse manter a catequese e os sacramentos aos povos nativos. Idos Francisco e Lourenço em direção ao Cococi, onde, em 1720, iniciariam a devoção à Imaculada Conceição, a Sé de Olinda e Recife enviou para curar os indígenas o Padre José Bezerra da Costa (ou do Vale), da Companhia de Jesus, que ainda muitos anos permaneceu nesta função, até deixar suas ordens, em data desconhecida, para juntar-se com uma mulher nativa, de nome Páscoa Ferreira, ou Micaela, segundo alguns registros.
Aldeados pelo Pe. José da Costa em 1727, os povos Jucás e alguns Kariris que ali existiam foram reunidos já sob o nome “Lugar de Arneiroz”, em referência à grande quantidade de areias e terra arenosa que cobria este território, embora haja alguns registros que atribuem a Arneiroz um nome mais antigo, certamente anterior a esta data: “Missão do Jucá” e ainda “Missão de São José”. Estes mesmos povos nativos, ora aldeados pelo Pe. José do Vale, receberam a 02.09.1779 um novo sacerdote provido para curá-los, o Pe. Francisco Xavier Cabral que, tendo os encontrado indômitos e desobedientes, resolveu mandar escoltar o mais rebeldes para a Missão do Miranda (Crato), Monte Mor (Baturité) e Arronches (Parangaba).
O registro escrito aponta que, entre 1721 e 1725, travou-se entre os irmãos Alves Feitosa e a família de Isabel do Monte, primeira esposa de Francisco, uma dissidência sanguinária por terras virgens do Vale do Jaguaribe, conflito mediado mais tarde pelo Capitão-mor Manoel Francês. A tradição oral indica que, à época, grande volume populacional de todo o interior do Ceará migrou para as capitanias vizinhas, por medo desse conflito. O mesmo capitão Manoel Francês determinou a retirada de Francisco Alves Feitosa da capitania do Ceará, que se refugiou em casa de Pedro de Sousa Rêgo, ou na fazenda Môcha de sua propriedade, onde mais tarde surgiria a cidade de Oeiras. O retorno de Francisco em fins da década de 1730, junto ao cenário pacífico que se havia criado, rendeu a Arneiroz uma mudança de orago, o posto antes ocupado por S. José, passaria para a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora da Paz de Arneiroz, também chamada em alguns registros Nossa Senhora da Paz dos Inhamuns.
O Comissário Lourenço Feitosa havia se tornado, àquela altura, o maior latifundiário do Ceará, mantendo, só sob seu nome, mais de vinte sesmarias, cerca de duzentos e dezesseis mil hectares. Entretanto, com o tempo, faleceu sua mulher, seu filho único solteiro e por último ele próprio, não deixando descendência e ficando toda a fortuna para Francisco Alves Feitosa, seu irmão.
Entre os anos de 1748 e 1755, o neto de Francisco, Eufrásio Alves Feitosa, retornou ao Arneiroz para fixar sua moradia, não mais na Barra do Jucá, mas atravessando o curso do Jaguaribe, na margem leste deste, entre a grota que hoje divide o patrimônio e
Riacho do Mucuim, e ali próximo construiu uma pequena capela, de tão reduzidas proporções que o povo passou a chamar de “nicho”, denominação que corre até os tempos atuais. Talvez por conta do tamanho da capela, talvez por receio dos convertidos de terem a Casa Grande tão próxima de seu espaço de culto, os indígenas roubavam, todas as noites, a pequena imagem de Nossa Senhora da Paz, trazida de Portugal, do nicho e a escondiam no meio da caatinga, sempre no mesmo lugar, de onde o coronel, pela manhã, mandava buscar. O conjunto destes fatos parecia ao coronel sinal sobrenatural de que se haveria de construir uma terceira capela para abrigar a imagenzinha de Nossa Senhora, no mesmo lugar onde os nativos a escondiam, no mesmo lugar onde agora ela se encontra. Os primeiros registros de batismos celebrados nesta matriz datam de 1755 e as primeiras arrecadações, possivelmente de novenários em honra à padroeira, de 1767.
A 8 de abril de 1777, estando no Recife, o Pe. Manoel Calheiros Correia Pessoa recebeu a nomeação de cura da localidade de Arneiroz. À época, embora alguns documentos já nos referenciassem como “Parochia de Nossa Senhora da Paz do Arneiroz”, éramos ainda pertencentes à Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, na freguesia de São Matheus, atualmente da cidade de Jucás.
No dia seguinte, 9 de abril de 1777, o Pe. Manoel solicitou ao bispo diocesano o desmembramento do território de Arneiroz da freguesia de S. Matheus, obtendo apenas um despacho de divisão territorial. Anos depois, já em 13 de maio de 1783, mediante uma nova solicitação de desmembramento, o então bispo de Olinda e Recife, Dom Frei Tomás da Encarnação da Costa Lima, da Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho e primeiro bispo nascido no Brasil, ordenou ao vigário de Santo Antonio em Quixeramobim, Pe. Antonio Poz Duarte de Araújo Lima, que celebrasse em nome do bispo o desmembramento, conforme o despacho de 1777, como de fato celebrou e nomeou o primeiro vigário o Pe. Francisco Xavier Cabral, que já atendia à igreja de Arneiroz desde 1779.
O Coronel Eufrásio mandou vir de Portugal, em data que não nos alcançou a memória nem os registros, uma imagem em tamanho natural do Senhor Morto, que desembarcaria em Salvador, onde receberia uma cruz e viria até Arneiroz nas costas dos escravos. A imagem efetivamente chegou à costa brasileira, recebeu a cruz onde foi pregada e veio sendo trazida por escravos do coronel, entretanto, o delongamento do percurso de volta, com o peso da imagem somado ao da cruz fez com que o coronel se achasse já próximo da morte no aguardo da imagem, enviando um mensageiro aos portadores da sagrada estátua que se apressassem para Eufrásio ver ainda vivo a imagem que encomendara. A notícia chegou à altura da passagem dos escravos pela freguesia de São Matheus, fazendo-os despregar a cruz da estátua, para que, diminuindo o peso, aumentasse a velocidade com que carregariam a imagem. Deixaram, pois, a belíssima cruz na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e trouxeram apenas o Senhor Morto, ainda que não tenha alcançado em vida o Coronel Eufrásio. Ficou a imagem guardada sob o altar muitas décadas, pois ninguém fora buscar de volta a cruz esquecida em São Matheus.
Diz o historiador Aécio Feitosa e soma-se à sua pesquisa a tradição oral que indica que muitos anos depois, um sacerdote que atendia às duas paróquias (de Arneiroz e de S. Matheus) vira o crucificado sem cruz em Arneiroz, com as medidas congruentes a uma cruz sem crucificado que havia na sacristia de São Matheus e apresentou aos fieis de Arneiroz o desejo de levar a imagem do Senhor Morto para Jucás, pois julgou ser de lá a propriedade da imagem, mas foram vãos os esforços, pois os paroquianos à época teriam o expulsado de Arneiroz sob graves ameaças. Anos depois ainda – diz a tradição oral –, submergiram a imagem, cujos ombros são revestidos de couro, por sete dias, a fim de amolecer os braços, já há tantas décadas enrijecidos, para abri-los e colocá-lo numa cruz digna. Embora tenham tentado, à época, recuperar a cruz original, os fiéis de S. Matheus não foram favoráveis, porquanto usassem aquela cruz em muitas ocasiões solenes, dado
seu grande valor artístico. Por fim, foi esculpida uma outra cruz, inferior àquela original, posta nela a imagem e fincada no retábulo da Matriz, onde até hoje permanece, donde governa soberano o Arneiroz, como uma das mais belas representações de nosso Senhor deste sertão.
Em 04.04.1789, o Coronel Eufrásio Alves Feitosa e sua mulher, Maria Alves Feitosa, doaram ao patrimônio de Nossa Senhora da Paz a propriedade de meia légua de terras por meia légua de fundos, a contar da margem do Jaguaribe para cima e do boqueirão das serras para o poente.
O referido patrimônio, que servia de sustentação para a Matriz em virtude da cobrança dos foros e arrendamentos, foi vendido na década de 1920, junto a boa parte do patrimônio diocesano à época, pelo primeiro bispo do Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva para a instalação do Banco Cariri, a 08.09.1921, fundido a outras sociedades financeiras na década de 1970. Registros incertos indicam a recuperação deste patrimônio por um devoto de Nossa Senhora da Paz por volta de 1930 e sua posterior doação de volta à propriedade da Paróquia de Arneiroz, que até os presentes dias serve de recolhimento de foros e laudêmios para a sua manutenção.
Nos tempos atuais, já sob o pastoreio da Diocese de Iguatu, a Paróquia de Arneiroz constitui-se de quinze comunidades na zona rural dos municípios de Arneiroz, Catarina e Parambu, a saber: Comunidade Santa Terezinha do Menino Jesus em Figueiredo II, Comunidade São Francisco de Assis em Figueiredo I, Comunidade São Cristóvão em Intans/Condadu, Comunidade São José em Abismo, Comunidade São Francisco de Assis em Mucuim, Comunidade Nossa Senhora do Carmo em Cachoeira de Fora, Comunidade São Sebastião em Serra Verde, Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Pedra Vermelha, Comunidade São João Evangelista em Campo Preto, Comunidade São João Batista em Poço dos Cavalos, Comunidade São Francisco de Assis em Lagoa dos Rodrigues, Comunidade Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Agrovila, Comunidade Nossa Senhora das Graças em Cajaranas, Comunidade Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Favelas e Comunidade Senhora Santa Ana em Planalto. Na sede municipal, os fiéis também se reúnem em quatro comunidades, que são: Comunidade Santo Antonio no bairro Antonio Monteiro Pedrosa, Comunidade Nossa Senhora das Graças no bairro Silva Bezerra, Comunidade Santa Luzia no bairro Santa Luzia, uma capela, sem comunidade, dedicada a Todos os Santos, no cemitério, e a comunidade da Matriz Paroquial de Nossa Senhora da Paz.
Nos diversos carismas inspirados pelo Espírito a esta parcela do Povo de Deus, os filhos de Nossa Senhora da Paz também se organizam em diversos grupos, movimentos e pastorais que, incentivados pela nossa paróquia nas suas atividades sociais, pastorais, litúrgicas, devocionais e catequéticas, glorificam a nosso Senhor no exercício de sua vida eclesial. Possui esta paróquia: Pastoral do Batismo, Pastoral da Criança, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral da Acolhida, Pastoral do Dízimo, Pastoral da Esperança, Grupo de Liturgia, Grupo de Coroinhas, Grupo de Cerimoniários, Grupo de Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística, Encontro de Casais com Cristo, Renovação Carismática Católica, Apostolado da Oração do Sagrado Coração de Jesus, Oratório das Mãos Ensanguentadas de Jesus, Oratório de Nossa Senhora de Fátima, Terço dos Homens, Catequese de primeira comunhão, Catequese de Crisma e Preparação Pré-Matrimonial.
No dia-a-dia da vida em comunidade, expressam-se os carismas desses mesmos grupos com os quais a paróquia consegue suas atividades cotidianas: Missas e confissões ordinárias na Matriz às quintas e domingos, à noite; Grupo de Oração às segundas; Terço dos Homens às terças; Oração do Ministério de Intercessão às quartas; Exposição e Adoração Eucarística às quintas, antes da Missa; Ofício da Imaculada Conceição aos sábados; Novenas e outros encontros sazonais de preparação para o Natal, na Quaresma com Vias-Sacras, no mês de Maio, em preparação à solenidade de Pentecostes, em preparação à solenidade do Sagrado Coração de Jesus e em preparação à festa de São Francisco; encontros mensais do Apostolado da Oração e do Encontro de Casais com Cristo; Batismos comunitários quinzenais e preparações para o Batismo também quinzenais; formações a respeito de temas diversos de liturgia e diversas ocasiões extraordinárias onde o Povo de Deus pode expressar sua disposição e o oferecimento de seus dons em prol da edificação do Seu Reino.
Em todas e em cada uma destas coisas, glorificamos a Deus pela história de nossa paróquia e recomendamos à sua infinita misericórdia as almas de todos os benfeitores que colaboraram ao longo dos duzentos e quarenta e dois anos de instalação canônica para que estivéssemos, com a Graça de Deus, onde hoje estamos. Imploramos a Ele, pela intercessão de nossa soberana rainha, a Virgem da Paz, que não esqueça do seu povo pobre e pecador e que, se for de sua vontade, que mantenha firmes os olhos pela humilde casa de Nossa Senhora da Paz.
A Cristo que era, que é e que há de vir, Soberano do Universo, toda glória e louvor, ontem, hoje e sempre.
Estabeleceram residência na barra do Rio Jucá, onde fundaram o mais antigo resquício da fé cristã destes sertões, erigindo uma pequena capela de taipa, muito provavelmente em honra ao patriarca da Santa Igreja, São José. Em que pese não se possa precisar a data destes acontecimentos, foram posteriores a 1707, data em que foram doadas em sesmaria seis léguas de margens do Jucá aos irmãos, e ocorreram, seguramente, antes de 1720, ano que estavam já em Cococi, sendo que o Pe. Christiano Rodrigues afirmava terem tido lugar na primeira década do século dezoito.
Estima-se que tenha sido no ano de 1718 que os irmãos deixaram este pedaço da caatinga, mas não sem antes providenciar a assistência de um sacerdote que pudesse manter a catequese e os sacramentos aos povos nativos. Idos Francisco e Lourenço em direção ao Cococi, onde, em 1720, iniciariam a devoção à Imaculada Conceição, a Sé de Olinda e Recife enviou para curar os indígenas o Padre José Bezerra da Costa (ou do Vale), da Companhia de Jesus, que ainda muitos anos permaneceu nesta função, até deixar suas ordens, em data desconhecida, para juntar-se com uma mulher nativa, de nome Páscoa Ferreira, ou Micaela, segundo alguns registros.
Aldeados pelo Pe. José da Costa em 1727, os povos Jucás e alguns Kariris que ali existiam foram reunidos já sob o nome “Lugar de Arneiroz”, em referência à grande quantidade de areias e terra arenosa que cobria este território, embora haja alguns registros que atribuem a Arneiroz um nome mais antigo, certamente anterior a esta data: “Missão do Jucá” e ainda “Missão de São José”. Estes mesmos povos nativos, ora aldeados pelo Pe. José do Vale, receberam a 02.09.1779 um novo sacerdote provido para curá-los, o Pe. Francisco Xavier Cabral que, tendo os encontrado indômitos e desobedientes, resolveu mandar escoltar o mais rebeldes para a Missão do Miranda (Crato), Monte Mor (Baturité) e Arronches (Parangaba).
O registro escrito aponta que, entre 1721 e 1725, travou-se entre os irmãos Alves Feitosa e a família de Isabel do Monte, primeira esposa de Francisco, uma dissidência sanguinária por terras virgens do Vale do Jaguaribe, conflito mediado mais tarde pelo Capitão-mor Manoel Francês. A tradição oral indica que, à época, grande volume populacional de todo o interior do Ceará migrou para as capitanias vizinhas, por medo desse conflito. O mesmo capitão Manoel Francês determinou a retirada de Francisco Alves Feitosa da capitania do Ceará, que se refugiou em casa de Pedro de Sousa Rêgo, ou na fazenda Môcha de sua propriedade, onde mais tarde surgiria a cidade de Oeiras. O retorno de Francisco em fins da década de 1730, junto ao cenário pacífico que se havia criado, rendeu a Arneiroz uma mudança de orago, o posto antes ocupado por S. José, passaria para a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora da Paz de Arneiroz, também chamada em alguns registros Nossa Senhora da Paz dos Inhamuns.
O Comissário Lourenço Feitosa havia se tornado, àquela altura, o maior latifundiário do Ceará, mantendo, só sob seu nome, mais de vinte sesmarias, cerca de duzentos e dezesseis mil hectares. Entretanto, com o tempo, faleceu sua mulher, seu filho único solteiro e por último ele próprio, não deixando descendência e ficando toda a fortuna para Francisco Alves Feitosa, seu irmão.
Entre os anos de 1748 e 1755, o neto de Francisco, Eufrásio Alves Feitosa, retornou ao Arneiroz para fixar sua moradia, não mais na Barra do Jucá, mas atravessando o curso do Jaguaribe, na margem leste deste, entre a grota que hoje divide o patrimônio e
Riacho do Mucuim, e ali próximo construiu uma pequena capela, de tão reduzidas proporções que o povo passou a chamar de “nicho”, denominação que corre até os tempos atuais. Talvez por conta do tamanho da capela, talvez por receio dos convertidos de terem a Casa Grande tão próxima de seu espaço de culto, os indígenas roubavam, todas as noites, a pequena imagem de Nossa Senhora da Paz, trazida de Portugal, do nicho e a escondiam no meio da caatinga, sempre no mesmo lugar, de onde o coronel, pela manhã, mandava buscar. O conjunto destes fatos parecia ao coronel sinal sobrenatural de que se haveria de construir uma terceira capela para abrigar a imagenzinha de Nossa Senhora, no mesmo lugar onde os nativos a escondiam, no mesmo lugar onde agora ela se encontra. Os primeiros registros de batismos celebrados nesta matriz datam de 1755 e as primeiras arrecadações, possivelmente de novenários em honra à padroeira, de 1767.
A 8 de abril de 1777, estando no Recife, o Pe. Manoel Calheiros Correia Pessoa recebeu a nomeação de cura da localidade de Arneiroz. À época, embora alguns documentos já nos referenciassem como “Parochia de Nossa Senhora da Paz do Arneiroz”, éramos ainda pertencentes à Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, na freguesia de São Matheus, atualmente da cidade de Jucás.
No dia seguinte, 9 de abril de 1777, o Pe. Manoel solicitou ao bispo diocesano o desmembramento do território de Arneiroz da freguesia de S. Matheus, obtendo apenas um despacho de divisão territorial. Anos depois, já em 13 de maio de 1783, mediante uma nova solicitação de desmembramento, o então bispo de Olinda e Recife, Dom Frei Tomás da Encarnação da Costa Lima, da Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho e primeiro bispo nascido no Brasil, ordenou ao vigário de Santo Antonio em Quixeramobim, Pe. Antonio Poz Duarte de Araújo Lima, que celebrasse em nome do bispo o desmembramento, conforme o despacho de 1777, como de fato celebrou e nomeou o primeiro vigário o Pe. Francisco Xavier Cabral, que já atendia à igreja de Arneiroz desde 1779.
O Coronel Eufrásio mandou vir de Portugal, em data que não nos alcançou a memória nem os registros, uma imagem em tamanho natural do Senhor Morto, que desembarcaria em Salvador, onde receberia uma cruz e viria até Arneiroz nas costas dos escravos. A imagem efetivamente chegou à costa brasileira, recebeu a cruz onde foi pregada e veio sendo trazida por escravos do coronel, entretanto, o delongamento do percurso de volta, com o peso da imagem somado ao da cruz fez com que o coronel se achasse já próximo da morte no aguardo da imagem, enviando um mensageiro aos portadores da sagrada estátua que se apressassem para Eufrásio ver ainda vivo a imagem que encomendara. A notícia chegou à altura da passagem dos escravos pela freguesia de São Matheus, fazendo-os despregar a cruz da estátua, para que, diminuindo o peso, aumentasse a velocidade com que carregariam a imagem. Deixaram, pois, a belíssima cruz na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e trouxeram apenas o Senhor Morto, ainda que não tenha alcançado em vida o Coronel Eufrásio. Ficou a imagem guardada sob o altar muitas décadas, pois ninguém fora buscar de volta a cruz esquecida em São Matheus.
Diz o historiador Aécio Feitosa e soma-se à sua pesquisa a tradição oral que indica que muitos anos depois, um sacerdote que atendia às duas paróquias (de Arneiroz e de S. Matheus) vira o crucificado sem cruz em Arneiroz, com as medidas congruentes a uma cruz sem crucificado que havia na sacristia de São Matheus e apresentou aos fieis de Arneiroz o desejo de levar a imagem do Senhor Morto para Jucás, pois julgou ser de lá a propriedade da imagem, mas foram vãos os esforços, pois os paroquianos à época teriam o expulsado de Arneiroz sob graves ameaças. Anos depois ainda – diz a tradição oral –, submergiram a imagem, cujos ombros são revestidos de couro, por sete dias, a fim de amolecer os braços, já há tantas décadas enrijecidos, para abri-los e colocá-lo numa cruz digna. Embora tenham tentado, à época, recuperar a cruz original, os fiéis de S. Matheus não foram favoráveis, porquanto usassem aquela cruz em muitas ocasiões solenes, dado
seu grande valor artístico. Por fim, foi esculpida uma outra cruz, inferior àquela original, posta nela a imagem e fincada no retábulo da Matriz, onde até hoje permanece, donde governa soberano o Arneiroz, como uma das mais belas representações de nosso Senhor deste sertão.
Em 04.04.1789, o Coronel Eufrásio Alves Feitosa e sua mulher, Maria Alves Feitosa, doaram ao patrimônio de Nossa Senhora da Paz a propriedade de meia légua de terras por meia légua de fundos, a contar da margem do Jaguaribe para cima e do boqueirão das serras para o poente.
O referido patrimônio, que servia de sustentação para a Matriz em virtude da cobrança dos foros e arrendamentos, foi vendido na década de 1920, junto a boa parte do patrimônio diocesano à época, pelo primeiro bispo do Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva para a instalação do Banco Cariri, a 08.09.1921, fundido a outras sociedades financeiras na década de 1970. Registros incertos indicam a recuperação deste patrimônio por um devoto de Nossa Senhora da Paz por volta de 1930 e sua posterior doação de volta à propriedade da Paróquia de Arneiroz, que até os presentes dias serve de recolhimento de foros e laudêmios para a sua manutenção.
Nos tempos atuais, já sob o pastoreio da Diocese de Iguatu, a Paróquia de Arneiroz constitui-se de quinze comunidades na zona rural dos municípios de Arneiroz, Catarina e Parambu, a saber: Comunidade Santa Terezinha do Menino Jesus em Figueiredo II, Comunidade São Francisco de Assis em Figueiredo I, Comunidade São Cristóvão em Intans/Condadu, Comunidade São José em Abismo, Comunidade São Francisco de Assis em Mucuim, Comunidade Nossa Senhora do Carmo em Cachoeira de Fora, Comunidade São Sebastião em Serra Verde, Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Pedra Vermelha, Comunidade São João Evangelista em Campo Preto, Comunidade São João Batista em Poço dos Cavalos, Comunidade São Francisco de Assis em Lagoa dos Rodrigues, Comunidade Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Agrovila, Comunidade Nossa Senhora das Graças em Cajaranas, Comunidade Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Favelas e Comunidade Senhora Santa Ana em Planalto. Na sede municipal, os fiéis também se reúnem em quatro comunidades, que são: Comunidade Santo Antonio no bairro Antonio Monteiro Pedrosa, Comunidade Nossa Senhora das Graças no bairro Silva Bezerra, Comunidade Santa Luzia no bairro Santa Luzia, uma capela, sem comunidade, dedicada a Todos os Santos, no cemitério, e a comunidade da Matriz Paroquial de Nossa Senhora da Paz.
Nos diversos carismas inspirados pelo Espírito a esta parcela do Povo de Deus, os filhos de Nossa Senhora da Paz também se organizam em diversos grupos, movimentos e pastorais que, incentivados pela nossa paróquia nas suas atividades sociais, pastorais, litúrgicas, devocionais e catequéticas, glorificam a nosso Senhor no exercício de sua vida eclesial. Possui esta paróquia: Pastoral do Batismo, Pastoral da Criança, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral da Acolhida, Pastoral do Dízimo, Pastoral da Esperança, Grupo de Liturgia, Grupo de Coroinhas, Grupo de Cerimoniários, Grupo de Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística, Encontro de Casais com Cristo, Renovação Carismática Católica, Apostolado da Oração do Sagrado Coração de Jesus, Oratório das Mãos Ensanguentadas de Jesus, Oratório de Nossa Senhora de Fátima, Terço dos Homens, Catequese de primeira comunhão, Catequese de Crisma e Preparação Pré-Matrimonial.
No dia-a-dia da vida em comunidade, expressam-se os carismas desses mesmos grupos com os quais a paróquia consegue suas atividades cotidianas: Missas e confissões ordinárias na Matriz às quintas e domingos, à noite; Grupo de Oração às segundas; Terço dos Homens às terças; Oração do Ministério de Intercessão às quartas; Exposição e Adoração Eucarística às quintas, antes da Missa; Ofício da Imaculada Conceição aos sábados; Novenas e outros encontros sazonais de preparação para o Natal, na Quaresma com Vias-Sacras, no mês de Maio, em preparação à solenidade de Pentecostes, em preparação à solenidade do Sagrado Coração de Jesus e em preparação à festa de São Francisco; encontros mensais do Apostolado da Oração e do Encontro de Casais com Cristo; Batismos comunitários quinzenais e preparações para o Batismo também quinzenais; formações a respeito de temas diversos de liturgia e diversas ocasiões extraordinárias onde o Povo de Deus pode expressar sua disposição e o oferecimento de seus dons em prol da edificação do Seu Reino.
Em todas e em cada uma destas coisas, glorificamos a Deus pela história de nossa paróquia e recomendamos à sua infinita misericórdia as almas de todos os benfeitores que colaboraram ao longo dos duzentos e quarenta e dois anos de instalação canônica para que estivéssemos, com a Graça de Deus, onde hoje estamos. Imploramos a Ele, pela intercessão de nossa soberana rainha, a Virgem da Paz, que não esqueça do seu povo pobre e pecador e que, se for de sua vontade, que mantenha firmes os olhos pela humilde casa de Nossa Senhora da Paz.
A Cristo que era, que é e que há de vir, Soberano do Universo, toda glória e louvor, ontem, hoje e sempre.
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